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Fonte: Correio Braziliense. Foto: Robson G. Rodrigues/Esp. CB/D.A Press

‘Se for para fazer comédia para adolescente, prefiro fazer comercial’, diz o cineasta César Charlone

“O tema da nossa conversa é inveja”, brincou César Charlone durante a oficina sobre fotografia que ministrou no Recanto das Emas. A razão da “inveja” do cineasta é a vasta tecnologia de que jovens dispõem hoje para gravar. São recursos que, para ele, não banalizam o cinema. “Hoje todo mundo pode pegar um celular e gravar uma história linda e bombar no YouTube. Aconteceu uma democratização maravilhosa”, celebra o uruguaio radicado no Brasil.

A chuva não impediu mais de 120 jovens de se deslocarem até o IFB (Instituto Federal de Brasília) no Recanto das Emas para ouvir o cineasta. Seu currículo inclui uma indicação ao Oscar pela fotografia de Cidade de Deus (2003). Ele também é responsável pela fotografia de outros sucessos internacionais como O jardineiro fiel (2005) e Ensaio sobre a cegueira (2008). Mais recentemente, dirigiu a série brasileira 3%.

O convite a César Charlone partiu do projeto Lobo Fest, que na programação contempla passagens por escolas de Regiões Administrativas do DF com oficinas de produção cinematográfica. Antes, na terça (23/10), César Charlone palestrou para um auditório lotado da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB).

“Antigamente era bom quem tinha as ferramentas, hoje é bom quem tem uma boa história”, diz Charlone. Para contar histórias pela fotografia, primeiro ele indaga a intenção do diretor do filme. “Pergunto: ‘o que você quer contar com essa história?’. Fernando Meirelles me disse que achava que o Brasil precisava saber daquele caso (de Cidade de Deus) e então eu percebi que se tratava de uma denúncia”, revela o fotógrafo, que disse ter passado semanas cortando cenas para chegar a um material enxuto em Cidade de Deus. Usou apenas 20% do que filmou.

Política é tema constante em sua filmografia. O cineasta acompanha a trajetória de Fernando Haddad desde 2016 e, em 2006, filmou O banheiro do Papa com intenção de captar a ideologia de Papa Francisco. “Se for para fazer comédia para adolescente, prefiro fazer comercial”, garante. No início da carreira, ele conta que fazia comerciais para ganhar dinheiro e, com o dinheiro, tocar em temas sociais. “Hoje, posso escolher o que filmar”.

“Eu privilegio temas sociopolíticos, que tenham alguma informação, que tenha cunho social. Vivemos num mundo muito injusto e desequilibrado, onde poucos têm muito e muitos têm pouco”, critica. Para o cineasta, “a coletividade é a parte mais bonita do cinema”.

Admiração

“O cara não é brasileiro mas ele é uma das nossas maiores referência do nosso cinema. Vim aprender o máximo com ele. Pegar dicas e saber de tudo que ele tem para contar”, diz a estudante Thaís Oliveira, de 25 anos. A brasiliense tomou gosto pela fotografia no curso técnico de áudio e vídeo no IFB. Paralelamente, estuda audiovisual na UnB. “Eu fiquei sabendo da oficina pelo site da Lobo Fest e corri para fazer inscrição”, conta a jovem, que fotografou todo o evento enquanto escutava César Charlone. Ela diz que “a cena da galinha”, que abre Cidade de Deus, é uma das cenas mais exibidas nas aulas de vídeo.

“Aproximar um profissional tão importante que tem uma carreira de dimensão internacional, que foi fotógrafo de vários filmes importantes dentro e fora do Brasil dilui a distância entre ele e jovens que estão começando agora” diz Josiane Osório, idealizadora do Lobo Fest. O evento, que em novembro exibirá curtas de várias partes do mundo em festival, passa agora por escolas fora do Plano Piloto e leva oficinas gratuitas para interessados em audiovisual ministradas por nomes com destaque no cinema local e nacional.

* Estagiário sob supervisão de Nahima Maciel